Em entrevista dada à Folha Online, Talese contou que está aniamdo com a vinda ao Brasil

Gay Talese se prepara para a viagem ao Brasil
Gay Talese é um dos principais nomes internacionais a participar da Festa Literária Internacional de Paraty. Conhecido como um dos protagonistas do new journalism, estilo que mistura narrativa literária e técnica jornalística, e ainda como um excelente autor de perfis, Talese vai discutir na Flip, que ocorre entre 1º e 5 de julho, o tema “fama e anonimato”, nome de um de seus livros, de 2004, lançado no Brasil pela Cia. das Letras.
Em entrevista dada à Folha Online essa semana, Talese, de 77 anos, diz que participar da festa literária em Paraty é para ele uma experiência de aprendizado com brasileiros que se preocupam com a escrita e com escritores. Em um referência ao seu mais famoso perfil: “Frank Sinatra está resfriado”, o norte-americano brincou que nem mesmo um resfriado o impediria de comparecer para o evento.
Fiel a seu estilo de pesquisar e escrever, o autor mantém-se avesso às novas tecnologias, diz que ainda não usa e-mail e que não presta atenção em livros eletrônicos. “Eu não uso e-mails. Não uso gravador, eu não faço as coisas de nenhuma forma diferentes do que fazia quando comecei, há mais de 50 anos.”
Folha Online – O senhor começou a escrever para jornais quando ainda era um adolescente que adorava jogar basquete. Mesmo naquele início de carreira suas reportagens já eram descritas como possuidoras de um estilo único: cada jogador se tornava uma personagem, cada jogo, um cenário. Como surgiu a ideia de transformar um simples jogo em um artigo que se assemelhava à literatura?
Gay Talese – Quando adolescente eu lia ficção –contos e romances– e com eles aprendi a arte de contar histórias. Eu mesmo nunca me interessei por ser um escritor de ficção… por que aspirar a algo que tantas outras pessoas já faziam? Eu tentei apenas uma vez escrever ficção; a história foi publicada, mas eu nunca mais fiz outra, porque me sentia muito mais atraído pela não ficção que é estruturada como ficção (cenas, diálogos, conflitos entre personagens etc.); mas, ao mesmo tempo, eu queria escrever sobre o que era real, não sobre o que era inventado, não sobre o que era falso de alguma forma. Ficção era falso para mim, ainda que pudesse ser “verdadeira”, no sentido de aspirar a uma verdade mais ampla do que aquela do jornalismo. Eu admito que o jornalismo tinha limitações. O jornalismo era geralmente feito sob a pressão de um prazo de entrega, e uma quantidade de tempo limitada era dada pelo objeto da matéria ao jornalista que fazia a reportagem. Mas meu jornalismo não era centrado nas notícias de última hora, e não tinha um limite de tempo, porque eu sempre insisti em levar todo o tempo necessário para pesquisar sobre as pessoas sobre quem escrevia (ou eu não escrevia sobre elas); e eu também queria contar histórias que descrevessem mais do que simplesmente o assunto principal delas. Na verdade, nos meus esforços mais bem-sucedidos em matérias, o personagem central é menos importante do que os personagens secundários que o cercavam. É só pensar em minha matéria sobre [o pugilista] Muhammad Ali (“Ali em Havana”), e “Frank Sinatra está Resfriado”, e meus livros também são caracterizados pelo surgimento de muitos personagens menores que ganham vida e iluminam as personagens principais… Todos os meus livros, incluindo aqueles publicados no Brasil, têm personagens secundários que são, para mim, os principais. Eu elevo personagens menores a astros em minhas páginas. Meu mais recente livro publicado no Brasil (“Vida de Escritor”) ilustra bem isso. Por exemplo, no capítulo sobre direitos civis, sobre a batalha dos afro-americanos pela igualdade de direitos nos anos 1960 em Estados racistas nos EUA, como o Alabama, não centrei minha atenção em Martin Luther King (1929-1968), mas sim em um obscuro advogado que aconselhou Luther King e mapeou a estratégia para marchas dos direitos civis e lutas por igualdade no tribunal. O advogado é J.L. Chestnut Jr.. No mesmo livro, falei sobre pessoas como um garçom de um restaurante, uma jogadora de futebol chinesa (que perde um jogo contra o time norte-americano durante uma Copa do Mundo) e também sobre o soldado da Marinha que perdeu o pênis para a faca de sua mulher (isso sim é perder algo!); e se você continuar, irá achar outros exemplos.
Folha Online – O senhor é conhecido por seu cuidado com a precisão dos fatos, por suas pesquisas exaustivas sempre que escolhe um tema para uma matéria. O que pensa da maneira como a imprensa lida com os fatos atualmente? O senhor acredita que ainda há espaço na mídia para a maneira como escreve as notícias?
Talese – Atualmente, a imprensa ainda é muito próxima ao poder, particularmente em Washington. Políticos demais “vazam” histórias para a imprensa sem serem identificados como a “fonte”. Existe um grande enredamento entre pessoas de poder e a imprensa, especialmente em Washington; mas você se lembrará que, na guerra entre EUA e Iraque depois da invasão de 2003, jornalistas americanos frequentemente estavam enredados com tropas norte-americanas, viajando em tanques e com transporte blindado para carregar material pessoal, o que eu acredito ser moralmente incorreto. Jornalistas não deveriam se tornar parte da produção da publicidade dos militares, seus ataques “encenados”, suas “photo-ops” [termo utilizado para se referir a uma oportunidade de tirar uma foto memorável de uma celebridade ou um político. Ganhou conotação negativa e hoje é utilizado para se referir a um acontecimento planejado, frequentemente disfarçado de notícia.], suas imagens cuidadosamente selecionadas nas quais o foco não é a consequência, mas sim o “photo-op” mostrando as tropas norte-americanas em seu papel profissional de “cavaleiros da liberdade”, “agentes da democracia”, galantes homens e mulheres americanos lutando contra ditaduras e terroristas e “impérios do mal”, diabos e demônios. Agora, deixe-me dizer: isso sim é ficção!
E também me permita acrescentar o seguinte: nenhum jornalista cobrindo os eventos no Iraque conseguiu uma grande história enquanto viajava em um tanque com soldados norte-americanos. Os jornalistas estavam em dívida para com os soldados que protegiam suas vidas enquanto eles [jornalistas, vestindo capacetes e coletes de artilharia] se acovardavam atrás do ataque dos soldados, e se tornavam agentes de imprensa e (frequentemente) protetores desse Exército contra as acusações de brutalidade que foram feitas. Sim, eu sei que a imprensa finalmente acertou o passo e noticiou o abuso feito com prisioneiros etc….Mas, de verdade, a imprensa norte-americana (tanto aquela centralizada em Washington como a que estava nos campos de batalha no exterior), de modo muito importante, não alertou os leitores americanos sobre as mentiras que foram distribuídas pelos conselheiros “fabricadores de guerra” do presidente George W. Bush. Pessoas como [Dick] Cheney, [Paul] Wolfowitz, [Richard] Perle, [Donald] Rumsfeld. [Condoleezza] Rice etc., estavam espalhando a informação de que “armas de destruição em massa” existiam no Iraque, e toda a desculpa para ocorrer a invasão provou ser uma mentira. Ainda assim, a imprensa noticiou o que o governo norte-americano falava para ela, o que distorcia para ela, o que, na realidade, mentia para ela. Portanto, a imprensa é tão responsável como a administração do governo Bush pela morte de 3.000 soldados norte-americanos, para não falar da quantidade muito maior de mortos entre os soldados e civis do Iraque.
Folha Online – Como é, para um jornalista, a experiência de tornar-se o assunto de tantos artigos e entrevistas como o senhor se tornou, ser a pessoa com quem tantos querem falar ao invés de ser aquele que quer falar com outras pessoas?
Talese – Eu aceito encontros com pessoas que querem me entrevistar porque agir de outra forma me marcaria como um hipócrita. Eu me lembro de quantas vezes, em anos passados, as pessoas me davam o benefício do seu tempo, e falavam comigo apesar de estarem muito ocupadas; então, acho que devo retornar o favor e falar com qualquer um que esteja verdadeiramente interessado no que tenho para dizer e em como faço meu trabalho. Além disso, quando alguém me faz perguntas, eu também faço perguntas para essa pessoa. Ao mesmo tempo que dou uma entrevista eu também faço uma entrevista. Aprendo muito com as pessoas que vêm falar comigo. Muitos desses entrevistadores são jovens, décadas mais jovens do que eu; então eu consigo uma perspectiva “jovem” dessas pessoas, e aprendo muito sobre pessoas que não conheceria de outra maneira. Eu ganho, e elas ganham. É uma toca valiosa de ideias e um crescimento do entendimento entre diferentes gerações.
Folha Online – Por que o senhor decidiu aceitar o convite para a Flip? Quais são as suas expectativas?
O convite para a Flip é uma experiência de aprendizado, me oferecendo uma oportunidade de ver e ouvir e dialogar com outras pessoas; nesse caso, com brasileiros que se preocupam com a escrita e com escritores. Como resistir à chance de fazer parte de uma experiência como essa?