
- Diálogo com Genet na corda bamba
Adaptação teatral de um poema sobre a solidão moral do artista, escrito em 1957 pelo francês Jean Genet, um dos mais revolucionários dramaturgos do século 20, O Funâmbulo chega aos palcos brasileiros pela primeira vez no dia 11 de setembro, no Sesc Paulista. O monólogo, traduzido por Fátima Saadi, exigiu do ator João Paulo Lorenzon muito mais que equilíbrio na hora de andar sobre o arame, como fazia o garoto marroquino Abdallah Bentaga, a quem Genet dedicou o poema. O ator teve de viajar a Paris e reunir os três detentores dos direitos de O Funâmbulo – que não moram na França. Dançou na corda bamba para conseguir a autorização da montagem, dirigida por Joaquim Goulart, do Núcleo Caixa Preta, companhia por ele fundada.
“Nunca vi tanta exigência para liberar direitos de uma peça”, conta o ator, que, aos 30 anos, já enfrentou outro monólogo difícil, Memória do Mundo, inspirado no universo literário do escritor argentino Jorge Luis Borges. “Tive de provar que sabia andar sobre o arame, fazer teste vocal, enviar croquis do cenário (de Daniela Thomas) e um dossiê das peças que fiz”, conta Lorenzon. Todo o esforço será colocado à prova na curta temporada da peça (até 1º novembro), quando Lorenzon vai ensaiar curvetas, dar saltos mortais e transmitir para o público a bela lição que Genet deu a seu amante Abdallah, um garoto de 18 anos que ele conheceu em 1955, quando acabara de concluir sua peça Os Negros. O garoto marroquino foi seu grande amor, segundo o biógrafo do escritor, Edmund White. Na velhice, Genet falaria de Abdallah e de Jean Decarnin como as duas figuras mais importantes de sua vida, garante White.
Genet, de fato, assumiu Abdallah e sua família pobre. Filho de um acrobata argelino com uma alemã semiparalítica, ele pertenceu a uma companhia itinerante de circo, arriscando a vida em troca de comida e abrigo. Quando o dramaturgo o conheceu, Abdallah morava numa barraca com um amigo muçulmano, Ahmed. Ele passou a sustentar o garoto semialfabetizado e sua mãe, vendendo os direitos de um roteiro cinematográfico, Le Rêves Interdits, para pagar suas aulas de equilibrismo. Espelho um do outro, segundo o diretor francês Pierre Constant, que dirigiu a peça em 1988, “eles se recriam numa fascinação recíproca”.
Um completa o outro, conclui Constant, reforçando a observação de White sobre a equivalência do risco enfrentado pelo funâmbulo no cabo de aço e o perigo assumido pelo artista ao desafiar os códigos morais da sociedade em que vive.
A peça, assim, é ao mesmo tempo um poema de amor e uma reflexão sobre a dramaturgia circense e teatral. O diretor Joaquim Goulart, ex-ator da companhia de Gerald Thomas e do Centro Grotowsky, que trabalhou sob a direção do russo Hryroij Hiadji, parece habituado a desafios. No ano passado ele encarou mais um: a montagem de Bartleby, adaptação do texto de Melville. Dessa figura arquetípica e sempre nas sombras, que prefere não participar da encenação social, ao funâmbulo de Genet – “encarnação luminosa do erotismo” -, a evolução é evidente.
Em todo caso, em ambos persiste certa obsessão tanatológica, como se a morte fosse paradoxalmente um ato de criação. “Não há antecedentes na dramaturgia de uma história como a de Genet e Abdallah, que se matou aos 28 anos”, diz Goulart, comentando a sequência em que o dramaturgo alerta o acrobata sobre a morte que o espera: “Se você cair, merecerá a oração fúnebre mais convencional: poça de sangue e ouro….Você não deve esperar outra coisa.”
Veja a entrevista inteira no http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090825/not_imp424022,0.php